Blog do Joe

Brasília -
O QUE ME DIZEM OS RIOS PDF Imprimir E-mail
Sex, 17 de Setembro de 2010 14:55

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Desci o Negro para encontrar o Solimões pela segunda vez. Na primeira, há
muitos anos com meus filinhos, tomamos banho exatamente onde as águas
desses rios namoradores caminham juntas, se afagando, para mais adiante, no
útero da floresta, parir o Amazonas.

Agora, guiados por Zezinho, nosso mestre condutor, navego silenciosamente
com meus amigos encantados, um casal de compadres, um candango que não
sabe nadar, Flávia, que vive em Lisboa, um japonês cantor e minha Iolanda que
com seus longos cabelos negros embeleza a paisagem.

Os rios se espalham preguiçosamente nesses meses de fim
de cheia. Enchem os igarapés, furos, as ruas amazônicas onde os caboclos
ribeirinhos trafegam com seus popopôs, suas canoas coloridas, em gaiolas de
três andares.

O vento morno me alegra. As marcas nos troncos das árvores mostram que a
cheia passou por ali e não faz tempo.

Mururés escorregam na contra-mão do barco puxados pela correnteza.

Casinhas de madeira, lindas casas, enfeitam as margens. Galinheiros
suspensos, cachorros nadadores, uma criança chora ao tomar banho de
cuia. A mãe acena para nosso barco. Vejo uma igrejinha azul enfeitadas com
bandeirinhas de São João.

Que me dizem os rios? O que cochicham para a Mãe D’Água, aos botos
brincalhões, para a pororoca que explode lá em baixo assustando a natureza?

Cuidem de mim, ouço ao longe. Não é um lamento. Só um pedido.

Os rios são tímidos e caminham sempre na mesma direção. São generosos por
onde passam com seus cardumes de matrinchãs, pintados e tucunarés.

Os rios embriagam a mata que alimenta o ar. Não se cansam, não desistem.
São alegres e como nós não querem sofrer.

Não demoro, volto aqui pra ver vocês de novo, volto logo, disse eu me
despedindo enquanto o barco fazia a volta e empinava a proa em direção da
cidade.

Sou filho dessa imensidão e já não posso ficar tão distante.

Ronaldo Duque, Manaus, junho de 2010

 
MEU QUERIDO ANTÔNIO PDF Imprimir E-mail
Qui, 10 de Junho de 2010 14:28

O velho Antônio Poteiro se foi. Nos conhecemos no início dos anos 90 quando ele voltava de uma oficina de cerâmica no Japão. Rodamos um filme e nos tornamos amigos. Daqueles que não vivem se falando ou bajulando. Mas que se admiram e  se gostam.

Recentemente o visitei em companhia da cineasta  Conceição Sena. Estava cansadinho mas ativo, falador, ainda pintando aos 92 anos. Despojado, humilde, cumpria seu destino. Poucas vezes em minha vida conheci tão bela alma.

Vai aí o resultado de nosso encontro registrado em Umatic há mais de 20 anos.

Antônio Poteiro

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O DOIDO É UBALDO PDF Imprimir E-mail
Qui, 06 de Maio de 2010 15:37
Estive recentemente na casa de João Ubaldo Ribeiro. Fui entrevistá-lo para o programa Impressões do Brasil. Foi uma deliciosa manhã  de histórias, lembranças e gargalhadas. Transcrevo abaixo uma crônica de Ubaldo publicada em O Globo, ainda nos anos 90, onde sou personagem. E viva a amizade!

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Ficando maluco devagarzinho

Claro, só pode ser isto. Tão em frente de meu nariz — se fosse uma cobra, me mordia, como se diz na minha terra — e eu não percebia. Mas realmente só pode ser isto: estou ficando maluco. Meu amigo Luiz Cuiúba já observava desde a nossa infância que eu tinha um problema na idéia, era meio avariado do juízo. Já que poucas pessoas me conheceram como ele ou têm sua sensibilidade e veia filosófica, eu já devia ter prestado mais atenção em minha condição mental. Se bem que de pouco fosse adiantar, porque não existe remédio para certas loucuras e não há como preveni-las com segurança. Mas talvez eu tenha antecipado um pouco sua instalação, não tomei certos cuidados que hoje sei imprescindíveis e deu no que deu. O processo é mais ou menos lento, mas se sente que a progressão anda a passos firmes.

Sim, em grande parte a culpa deve ser minha. Em primeiro lugar, não tinha nada que viver enfurnado aqui, sem ir a lugar nenhum, a não ser — ai de mim — a médicos e dentistas, e lendo todo tipo de jornal imaginável. A diabólica Internet tem praticamente todos, de toda parte do mundo, e eu não posso fazer nada, sou um infeliz viciado. Já disse antes, longe de mim cuspir no prato, mas vocês hão de convir em que, para quem é avariado do juízo, ler jornal configura gravíssima imprudência. Hoje estou seguro de que muito do que acho que recentemente li e ainda leio nos jornais e revistas foi inventado pela minha imaginação demente. Eu é que, reduzido a um frangalho nervoso, por acreditar em tudo com que nos aterrorizam — notadamente as notícias médicas, basta ler os sintomas da doença, que eu pego logo —, estou criando um universo igualmente enlouquecido. Óbvio que não existe nada disso, é tudo insanidade minha mesmo, espero que vocês estejam aliviados, desculpem ter andado passando grilos para vocês, quem é burro pede a Deus que o mate e ao diabo que o carregue, de boas intenções o inferno está cheio, essas coisas.

Por exemplo, eu não devo ter razão em achar que nós, o povo, sempre fomos garfados, tungados, esfolados, furtados, roubados, torturados, assassinados e por aí vai. Não pode ser, até porque o povo não é como eu. Digo como é que é eu. (Cartas protestando contra este pronome aí devem ser dirigidas ao editor desta página, pelo amor de Deus, ou ao dr. Arnaldo Niskier, na Academia.) Para isso, relembro um episódio da remota juventude. Defendia eu, então atendendo pela reputada alcunha de Delegado (devido a meu eficaz policiamento da grande área, no feliz dizer do locutor esportivo Edson Gaguinho), a gloriosa camisa da equipe do Flamenguinho do Rio Vermelho, em Salvador, e um centerralfe (quem não sabe o que é um centerralfe não manja nada de futebol, queira por favor procurar outro colunista) do outro time resolveu avançar de vez em quando e me dar uma rasteira, sob as vistas complacentes de sua senhoria.

Ele dava a rasteira e estendia a mão para me levantar, pedindo desculpas profusas, passando a mão na minha cabeça (baiano não gosta que lhe passem a mão pela cabeça, a não ser no sentido metafórico; querem ver, experimentem, pode até sair desforço físico) e fazendo uma cara contrita. Tudo bem, viva a desportividade, viva a fraternidade humana. Cinco minutos, lá vinha ele, nova rasteira. Nova mão estendida, novas desculpas, novas esfregadinhas no meu então couro cabeludo. E assim sucedeu um tempão, até que finalmente compreendi que tanto ele quanto o juiz estavam curtindo com a minha cara. Armei uma chupeta para ele. “Chupeta” era o nome então dado na Bahia a um calcinho bobo que nós, policiadores da grande área, aplicamos com naturalidade, principalmente se jogarmos no Santos. Com um leve toque, desvia-se o balão de couro da frente do pé adversário no momento do disparo e ele chuta, em vez do esférico, a sola do pé (Deus ajudando, o calcanhar) do defensor. Dói um bocadinho, às vezes quebra um ossinho ou outro, mas não é nada para se fazer um escândalo, todo mundo já viu isso, faz parte do rude esporte bretão, até porque, no meu tempo, futebol era pra homem. Foi a forma que encontrei para expressar minha revolta, mas a incompreensão tornou a vitimar-me e o árbitro me expulsou, tendo isso aberto mais um rombo em nossa já assaz porosa zaga, com o resultado de que amargamos a injusta quão cruel derrota de 8 a 2.

Assim é eu. Até hoje, levo tempo demais para dar partida no desconfiômetro e, quando ligo, freqüentemente já é tarde. O povo não  é como eu, já teria chiado muito mais, se as coisas fossem como eu penso.

Mas ninguém chia, está todo mundo satisfeito, só os fracassômanos e os silvérios dos reis reclamam. Não reclama nem mesmo o amigo que acaba de me telefonar, o bravo cineasta Ronaldo Duque. Com o humor afável de sempre, Ronaldo estava sendo assaltado. Ou por outra, estava trancado num prédio do Flamengo, onde se desenrolava um assalto, aí pelas 11 horas da manhã. Os assaltantes chegaram de crachá, entraram e começaram o serviço, mas alguém conseguiu chamar a polícia. Na hora em que Ronaldo me falou, a polícia ainda estava revistando o prédio, ninguém sabia o que ia acontecer. Vocês precisavam ouvir o tom bem-humorado de Ronaldo e as risadas que ele deu. Pois é, eu é que sou maluco, achando que isso desconjunta as pessoas. Desconjunta nada, faz parte natural da vida. É absolutamente normal e acontece o tempo todo, em qualquer cidade grande, um amigo telefonar para o outro no meio de um assalto.

Olá, tudo bem, estou sendo assaltado aqui — o senhor podia tirar o cano da metralhadora do meu ouvido, atrapalha um pouco falar no telefone, muito obrigado —, talvez eu chegue atrasado para nosso almoço, mas vou ver se consigo autorização do assaltante aqui para sair mais cedo do que os outros, ele é boa gente, acho que não vai dar problema, o único problema é que você vai ter que pagar o almoço, porque eu pedi a ele para me deixar um dos cartões de crédito, mas ele me explicou que lamenta, por ele deixava, mas a firma é muito rigorosa, não abre exceção, é isso mesmo, mas não foi pra isso que eu liguei, eu…

Verdade, é isso mesmo. E o assalto nem foi o primeiro assunto que Ronaldo abordou. Grande Ronaldo, me conduziu, com brilhantismo e oportunidade, à convicção, antes um tanto embrionária, de que estou maluco. Não levem em conta, pois, o que escrevi. Esqueçam o que eu escrevi, como disse o Homem. Se ele pode, eu também posso, sejamos democratas e compreensivos em relação a um pobre tarouco, que escreve para ganhar o seu modesto pão e não tem culpa de estar ficando doido.

Agora que vi a luz, embora quiçá por breve interlúdio, peço desculpas por qualquer coisa e me recolho ao claustro de meus delírios. Até que nem ia falar em nada disso, ia falar mal do Zé Rubem Fonseca, que mais uma vez me persegue. Mas, me perdoem, fica para depois, maluco é assim mesmo, o que nós dizemos não se escreve.
 
TRAGÉDIA CARIOCA PDF Imprimir E-mail
Seg, 12 de Abril de 2010 14:25

 

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Passei o final de semana no Rio de Janeiro, sem chuva ou desabamentos. O sol está de volta a Cidade Maravilhosa, sem tirar dor e a indignação com a maior tragédia da cidade, uma catástrofe anunciada, e a estatística revoltante de 229 mortos. Famílias destruidas. Cenários de lixo, corpos, lama.

Ontem, domingo, fizemos um longo sobrevoo saindo da zona norte, de Deodoro, bem longe das paisagens cariocas que costumamos ver na televisão. Dá um desespero ver  aqueles barracos pendurados nas pirombeiras prontas para desabar no próximo pampeiro.

Dois dias antes, ainda na sexta, entrevistei João Ubaldo e Ferreira Goulart para nosso programa Impressões do Brasil, que vai ao ar final do mês na TV Câmara. Uma dose dupla de bom humor, criatividade e  amor a poesia e a literatura. Conversamos por quase 4 horas nas duas entrevistas. João e Ferreira, respecivamente um baiano e o outro maranhense, são cariocas por adoção e amam essa cidade. Como todos aqui, não escondem revolta e tristeza.

Fico por aqui mais alguns dias. Revendo os amigos e a minha cidade que se recupera, que renasce, para continuar maravilhosa.

 
MARATONA LITERÁRIA PDF Imprimir E-mail
Qua, 07 de Abril de 2010 13:47

Criei esse bendito blog em junho do ano passado, pensando que ia dar conta de mantê-lo alimentado como manda o figurino. Como passo grande parte do dia frente a um computador, não gosto de andar, deixei de freqüentar os botecos e não ando com saco de ir ao cinema, pensei na época que poderia me divertir contando lorotas na internet. Mas esse mimeógrafo digital está se tornando um peso em minha vida.

Todos os dias digo vai ser hoje, vou inventar uma coisa nova e publicar. Nada! Vem lá um motivo qualquer e eu acabo esquecendo.

Hoje tomei vergonha e decidir contar o que está acontecendo em minha vida de blogueiro arrependido. Estou viajando o país entrevistando autores para uma série de TV chamada “Impressões do Brasil”.

A série vai ao ar no final desse mês de abril pela TV Câmara. Depois aviso a data de estréia. Conheci Milton Hatoum, Alice Ruiz, Marçal Aquino, Lira Netto, Afonso Romano de Santana, Rui Castro, Cristovam Tezza, Martha Medeiros e me diverti muito com Ziraldo e Luiz Fernando Veríssimo, que nos deu uma super canja com sua banda de jazz.

Nesse final de semana mesmo com o dilúvio que desabou sobre o Rio de Janeiro vamos entrevistar Ledo Ivo, Ferreira Goulart e João Ubaldo Ribeiro. E ainda faltam 15 personagens.

Entonces, como meu endereço por esses tempos é a poltrona 17 C da TAM, não sei quando vou aparecer de novo por aqui. Vão aí  algumas fotos dessa maratona literária clicadas pela Flavia Diab, nossa produtora, que veio de terras luzitanas. Na equipe filmagens estão Rubens Shinkai, Paulino Alvarenga e Walter Valério. A produção é da Mercado Cultural. Inté!


 
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